17/12/2017

Artista de Engenheiro Coelho conta como mistura educação, arte e comunicação

Álvaro Petersen Jr. participou das gravações dos programas Bambalalão, Cocoricó e Castelo Rá-Tim-Bum, da TV Cultura

Nathália Lima

Nascido em Ribeirão Preto (SP), interior de São Paulo, o entrevistado deste domingo (17) do Portal Coelhense acumula música, texto, conhecimentos e muita, muita experiência no currículo. Cheio de histórias para contar, Álvaro Petersen Jr., professor dos cursos de Arquitetura e Urbanismo e Rádio e TV do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp), apresenta uma longa lista de experiências profissionais e muito talento.

Do teatro ao desenho, do vídeo ao violão, Álvaro entende-se como arte-educador, envolvido em misturar dentro de sala de aula conhecimentos sobre arte, cultura, educação e comunicação. Ele é conhecido no mundo televisivo por ter participado de programas infantis consagrados como Bambalalão, Cocoricó e Castelo Rá-Tim-Bum, além de outras atividades artísticas.

Graduado em Arquitetura e Dramaturgia, e professor universitário há 12 anos, Álvaro explica que procura mesclar saberes em suas aulas para oferece aos alunos a possibilidade de reflexão. Conheça mais profundamente este profissional que faz da vida, o próprio meio de trabalho.

Quais são as principais áreas em quem você atua? Eu sempre fui envolvido em várias frentes diferentes. Eu sou músico compositor e instrumentista, já gravei discos com amigos meus, sou desenhista (característica talvez herdada de minha mãe, que também compartilha da arte do desenho), sou ator, roteirista e professor acadêmico. Já trabalhei em muitas iniciativas diferentes na vida e isso sempre foi bastante natural para mim. Enquanto componho uma música, escrevo um texto, fazendo um desenho, incorporando uma personagem, faço um vídeo, e isso tudo ao mesmo tempo. Essa é a minha maneira de viver a vida e a profissão.

Em que momento da vida você se compreendeu como artista? Desde cedo, eu sou envolvido com a música. Nos tempos de colegial, participava com meus amigos de apresentações e festivais, isso por volta dos meus 17 anos de idade. Em determinado momento, eu senti que apenas o conhecimento empírico não era suficiente. Foi aí que decidi estudar e me formar em alguma das áreas que eu gostava. Nessa época, eu decidi fazer Física na Unicamp, em Campinas. Não terminei o curso, por não ser o que eu esperava que fosse, e acabei mudando de rumo acadêmico e cursando Arquitetura e Urbanismo. Neste último curso, me graduei.

Como você conheceu a Cultura e em que momento começou a fazer parte do time de artistas da emissora? Eu sempre atuei de maneira a ampliar meu repertório de opções. Enquanto eu estava cursando Arquitetura, não parei com a música, continuei conhecendo muita gente e isso me trouxe até a TV Cultura em vários momentos. Antes de fazer teste para entrar na equipe, eu já compunha algumas canções, tocava com eles lá. Foi aí que me convidaram para fazer um teste para um programa infantil, o Bambalalão, em 1985 (que não era o que eu queria na época). Eu fui fazer o teste e nunca mais saí de lá. Foi tão impressionante que eu voltei para pegar minhas coisas depois de um ano. Nessa época, eu tranquei a faculdade e, depois que esse trabalho terminou, eu voltei e me formei no curso.

Como foi fazer parte de trabalhos que se consagraram no meio televisivo infantil? Bom, o primeiro trabalho que eu fiz na TV Cultura foi um programa infantil diário, com duas horas e meia de duração, ao vivo e sem texto. E aí? Você aprende ou não aprende? Ali eu aprendi a fazer televisão. No teste que fiz antes de ser aceito (que era diferente naquela época), eu entrei ao vivo pela primeira vez na minha vida. Foi uma experiência ímpar. E eu fui aceito imediatamente por um elenco composto de pessoas extremamente talentosas como Rosi Campos, Chiquinho Brandão, Helen Helene logo no meu primeiro dia. Quanto ao início do trabalho, não tive um período de adaptação. Eu já saí fazendo.

Quais eram os principais desafios do trabalho realizado nesses programas infantis? Além do ao vivo diário, nós tínhamos um comprometimento com a arte-educação. Por exemplo, uma das intenções era dizer à criança que ela evacua, que ela gosta das próprias fezes e que está tudo bem. Não tinha nada de “pititi”, não era um programa da Xuxa. Inclusive, a Xuxa era nossa antagonista na época. Enquanto nós estávamos dentro da TV Cultura, tocando músicas do cancioneiro popular brasileiro, resgatando cantigas de roda, ela estava lançando canções de música Pop infantilizadas apenas para consumo. Era a antítese do que a gente fazia. Algum tempo depois, eu fui chamado para participar como manipulador de bonecos no Castelo Rá-Tim-Bum. A partir desse momento, você tem um marco na história da dramaturgia, que apresenta o ator manipulador de bonecos e o boneco como a personagem.

Qual é o papel da música na sua experiência de vida? Eu não penso na música como algo um hobby. Até porque eu sempre peguei firme nessa área, apesar de não me considerar um profissional da música. Eu demorei bastante para lançar um disco. Meu primeiro trabalho completo saiu em 2012 e, em 2013, ele teve 4 indicações ao Grammy Latino como trabalho independente. Em 1984, eu lancei um compacto com apenas uma canção, em parceria com meu amigo Kiko Zambianchi, ainda antes do Renato Russo. Em 2014, eu gravei um CD instrumental de violão e arpa céltica junto com meu amigo Nando Araújo, que também teve indicação.

Há quanto tempo você dá aula? Como surgiu essa possibilidade? Eu sempre fiz muita palestra e workshops, principalmente sobre bonecos. Na Metodista de São Bernardo do Campo (SP), eu fui convidado a dar uma dessas palestras em 2005. Eles gostaram muito e me perguntaram se eu topava dar aula. Aí eu percebi que aula não tem nada a ver com workshop. Os processos são outros, as metodologias também. Nessa época, eu acabei fazendo uma pós-graduação em Educação e o Ensino Superior, buscando uma aperfeiçoamento como profissional em sala de aula e tentar entender o processo do ensino-aprendizagem um pouco melhor.

Quais têm sido tuas principais descobertas sobre a educação enquanto professor? Hoje, eu dou aula no Unasp em Arquitetura, que é minha formação acadêmica, e Comunicação Social, que é minha experiência profissional. Fui convidado, tanto na Metodista, quanto no Unasp, para dar aula por causa da minha experiência de mercado. Durante esses 12 anos que leciono, eu pude perceber que, nessa realidade, a academia não sabe o que realmente é o mercado. O melhor cara no mercado é aquele que fez uma bela faculdade, que estudou, que refletiu e coloca em prática. Ponto. Não é aquele que só colocou em prática. E eu falo isso em relação aos trabalhos de criação, que são o meu caso, não dos trabalhos de repetição.


“É decepcionante ver que uma minoria está interessada em aprender”


Na sua opinião, quais são os principais desafios da docência? Na sala de aula, eu aprendi a diferença entre o professor e o artista. Como artista, todo mundo observa e presta atenção no que eu estou falando ou fazendo. Enquanto professor, não é bem assim. Na universidade, é decepcionante ver que apenas uma minoria está realmente interessada em aprender e refletir sobre o que é passado dentro de sala de aula. E isso, não tenha dúvida, vai fazer muita falta na vida dessas pessoas. Infelizmente, eu não tenho como entrar na cabeça de ninguém e dizer “reflita sobre isso”. Dentro de sala de aula, pela maneira como eu compreendo a vida e a arte, eu proponho sempre uma reflexão íntima, pessoal e individual aos meus alunos, porque é preciso uma imersão no universo da arte-educação. O que eu gosto de propor em sala de aula é uma situação de comprometimento coletivo para que haja um crescimento individual. É preciso que as pessoas saibam trabalhar com seres humanos diferentes e que compreendam a opinião do outro como natural. Debates são saudáveis, expressar opiniões faz parte do trabalho. Assim acontece a produção.

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